
Traduzir um poema é algo desumano (nos vários sentidos), alguns dizem que é um crime. Sem querer entrar no mérito, o fato é que há algumas boas traduções (ou transcriações, como os irmãos, poetas e grandes transcriadores Augusto de Campos e Haroldo de Campos sugerem).
No campo específico da canção, há inúmeras boas versões (e a grande maioria prefere este termo, ao invés de traduções) para canções estrangeiras. Mais um privilégio dos tempos de rápido e fácil contato entre culturas.
Zélia Duncan, por exemplo, tem se aventurado, com êxito, na feitura de versões.
Pelo sabor do gesto (2009) tem duas: "De Bonnes Raisons" e "As-tu déjà aimé?", ambas de Alex Beaupain (compõem a trilha do belo filme
Les Chansons d'amour, de Christophe Honoré), viraram "Boas razões" e "Pelo sabor do gesto", respectivamente.
Dou tais informações, pois percebemos em
Pelo sabor do gesto um fio condutor montado sobre a discussão das aproximações e dos distanciamentos afetivos. Questão que atravessa o filme (tipicamente parisiense) e que Zélia, em mirada primorosa, traz para montar seu disco.
A perspectiva (algo monólogo) de um sujeito que canta suas dúvidas ganha adensamento e fixidez com a presença da regravação de "Telhados de Paris", de Nei Lisboa.
"Telhados de Paris" tematiza o próprio fazer poético-cancional, pois quando diz que "um silêncio sem fim (deixa) a rima assim sem mágoa, sem nada", a canção aponta para a estrutura formal do texto cantado. Não há rimas (métricas fixas, nem versos retos, corretos) na canção, muito embora haja uma rima insondável: entre a paisagem vislumbrada e o estado interno do sujeito.
A entoação quase falada (tranquila) de Zélia Duncan intensificam a sensação de que a canção está sendo "feita" naquele instante da audição. O ouvinte é convidado (a melodia com arranjo reiterativo ajuda) para entrar no estado das sensações do sujeito. Tudo é incompreensão diante do sujeito que canta, ao final, para a dona de seus olhos (doidos). Ele sabe que, de algum modo, o comum e o simples estão lhe revelando algum sentido maior de existência.
O sujeito se estranha, ao estranhar a paisagem que mora ao lado (telhados de Paris em casas velhas), mas parece outro país. Afinal, a canção "fala" sobre conjunções e disjunções (proporcionadas pela circularidade do vento outonal) amorosas entre o sujeito e o outro, mas, principalmente, entre o sujeito e ele mesmo.
Zélia Duncan, namorada da música e da poesia, sabe que a canção "só se realiza em ouvidos alheios" e cria canções para encantar, pelo (nada simples) sabor do gesto.